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entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Ana Paula Fonini

  • Foto do escritor: Palavra e vereda
    Palavra e vereda
  • 24 de fev. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 27 de mar. de 2025

Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.


A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise. 


Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan.


Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. 


De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas.


Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura. 


Confira a segunda entrevista, realizada com Ana Paula Fonini. Ana Paula é psicanalista, trabalhadora da Saúde Pública e da Rede de Atenção Psicossocial no município de Florianópolis/SC, no CAPS II Ponta do Coral e em consultório. Membro do Laço Analítico/ Escola de Psicanálise – subsede Florianópolis.


A resposta de Ana Paula à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista?” foi transcrita abaixo mantendo a primeira pessoa do singular.

 

“Pensando na nossa formação de analista, e pensando também de um modo geral na vida, eu tenho dificuldade de responder sobre uma coisa única que tenha me marcado. Acho difícil porque, na verdade, para mim são alguns livros, algumas pessoas. Não são tantos, incontáveis, mas são alguns.


Então, a primeira coisa que eu pensei diante da sua pergunta foi que eu não tinha essa resposta prontamente, o que é interessante, uma oportunidade de repensar esse momento inicial.


Eu acho que tem um texto, uma obra que fez com que eu realmente me voltasse para querer ser analista, querer saber o que era isso, e essa obra foi A interpretação dos sonhos.


Mas para chegar nele vou te falar um pouco do início da minha relação com a psicanálise.


A psicanálise não é uma coisa que fez parte da minha vida na infância, ou no início de adolescência, não era algo familiar. Não conhecia pessoas que faziam análise, não fazia parte do meu cotidiano. A primeira aproximação foi quando eu tinha uns 17 anos, em um momento em que fiquei muito mal. Tinha saído da cidade em que eu morava, no interior do Paraná, para estudar e depois de um ano fora algumas coisas ficaram muito difíceis, entre elas, não saber o que estudar, mas certamente não era o único motivo do meu sofrimento. Então, a irmã do meu namorado, que era psicanalista, e de quem eu tinha escutado pela primeira vez palavras como cartel, jornada de cartéis, escola de psicanálise, me indicou uma analista. Eu marquei um horário,  precisava de alguma ajuda naquele momento pois não sabia muito bem o que estava me causando aquele sofrimento todo, acho que sabia bem pouco na verdade; mas queria que alguém soubesse e, quem sabe, me livrasse daquilo.


Aquela primeira sessão foi uma experiência absolutamente estranha para mim, porque aquilo não era uma conversa, por falar de algo íntimo para alguém que nunca tinha visto, porque eu estava mal e esperava um tipo de acolhida e de resposta que não ocorreu. Lembro que eu entrei e falei o que era possível falar naquele momento, talvez tenha mais chorado do que falado. Foi uma sessão curta, e ela me falou uma única frase no final da sessão e depois me perguntou se eu queria voltar. Eu disse que queria voltar, mas só disse isso porque me parecia o modo mais rápido de sair daquela situação de mal-estar. Eu sabia que não voltaria, pelo menos não imediatamente. O que ela me disse não tinha nada de descabido, pelo contrário, situava muito bem uma questão no sintoma de que me queixava e me implicava nele. Por isso mesmo, essa frase, que continha uma interpelação, me deu trabalho em análises seguintes. Também por isso, foi insuportável. Foi necessário um tempo para que eu pudesse escutar aquilo sem querer sair correndo.

 

Como disse, não sabia o que queria estudar, “quem eu queria ser”. A psicologia não foi o primeiro curso que fui fazer. Eu tinha entrado em um curso de informática, depois de economia, que me levou para a área de humanas. Parei economia e fiz vestibular para ciências sociais e psicologia. Minha preferência era fazer ciências sociais, mas passei em psicologia. No curso de psicologia foi meu segundo encontro com a psicanálise e o primeiro com Freud e com o texto A Interpretação dos Sonhos. Tive uma professora de psicanálise marcante, que pôde me proporcionar estar diante dos textos, fazer as discussões, pensar a clínica. E era muito curioso, porque ela era uma figura com uma apresentação que eu achava super careta, o modo de se vestir, e ao mesmo tempo ela falava coisas que eram nada caretas. Um dos textos que estudamos foi alguns capítulos da Interpretação dos Sonhos. Esse texto foi uma abertura, onde eu encontrava algo comum, comum tanto no sentido de cotidiano, habitual, quanto de algo partilhável, que eu experienciava. E falava do comum de um modo extraordinário. Os sonhos eram muito marcantes para mim, frequentes, detalhados, lembrados, às vezes por muitos dias, ou até por anos. Eles foram material primordial nos primeiros anos de análise, o barro de construção de muito desse trabalho. Por isso, foi fundamental encontrar um texto que falava de uma experiência muito íntima e intensa, a experiência do sonho. É um dos textos que inaugura a psicanálise, toda a apresentação e desenvolvimento do inconsciente, em que também fica muito claro o lugar da linguagem na psicanálise, que Lacan tão bem retomou. Mas naquele momento o que me tocava era que aquilo conversava com alguma coisa que eu sentia e não sabia nomear, não sabia o que era. Esse texto teve esse lugar, de me mostrar que a psicanálise falava coisas que tinham relações com o que as pessoas vivem, com o que as pessoas sentem.


Um sonho é o que me leva a procurar pela segunda vez uma análise, na qual pude ficar por bem mais tempo. Penso que a primeira experiência, apesar de insustentável, deixou uma possibilidade em aberto, um enigma a ser respondido. Esse encontro com Freud fez ser possível querer responder.


Respondida a sua pergunta inicial, gostaria agora de comentar de outro livro, que não é de psicanálise, mas que foi importante na minha formação. Menos pelo livro em si e mais pelo que derivou dele. Foi o livro Canto dos Malditos, que depois deu origem ao filme Bicho de sete cabeças. Durante minha graduação, no curso de psicologia, não tive nada de saúde mental, reforma psiquiátrica, sobre o SUS, não fazia parte do currículo, não era discutido. Mas tive bons amigos na faculdade e ter bons amigos é das melhores coisas na vida. Além de amigos, gostávamos muito de estudar juntos, tínhamos muitos interesses parecidos e muita curiosidade.


Não tenho certeza, acho que foi em 90, eu estava no primeiro ano de psicologia e a gente chamou o Austregésilo Carrano, autor do livro Canto dos Malditos para fazer uma fala ou um debate. Essa conversa e as discussões que se seguiram me abriram inúmeras questões sobre o uso de drogas e sobre a clínica das psicoses, os “tratamentos” e toda a violência presente, violência muitas vezes revestida de cuidado e exercida não só por profissionais, mas pela sociedade de modo geral. Questões, que de modos diversos, estão presentes na minha vida até hoje e que têm um lugar muito importante na minha formação, na minha clínica, em como eu penso o trabalho de analista, como construo o meu trabalho na saúde mental e no meu consultório. Essas marcas também foram decisivas para que eu escolhesse estar no Laço Analítico.


São marcas que levaram um tempo para se fazerem escolhas. Muitas vezes vamos escolhendo e só depois identificamos e reconhecemos a partir de que marcas essas escolhas se deram.


Te falando e pensando contigo, acho que a formação é assim: o que me move no primeiro momento tem a ver com algo que me afeta, um sofrimento, uma busca por entender algo que para mim era incompreensível, por me livrar daquilo a que estava agarrada. Então, acho que a formação vai articulando as nossas questões, o que vamos encontrando na análise, na clínica, com as obras que dialogam com isso. É bom que a gente possa seguir encontrando textos, livros, gente, que nos afetem, mexam com o que já está tão estabelecido. Acho, inclusive, muito difícil ser analista sem ter questões, sem ter perguntas, incômodos.


Tem as respostas que vamos construindo com novos textos, com outros autores, em discussões, com colegas que nos fazem repensar coisas, desenvolver outras. E tem também o que encontramos em cada momento que retornamos num texto, a cada retorno tem algo que a gente revê e reelabora no trabalho e pensa ‘Como eu nunca tinha lido isso desse jeito?’ Acho que isso é o que faz a formação, que a gente possa ler o que não tinha lido antes.”


Essa é a segunda publicação de uma série de entrevistas que estamos realizando com alguns psicanalistas sobre a temática do início da formação e a leitura que lhe marcou. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!



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