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  • Fim da primeira rodada de entrevistas

    Foram cerca de três meses de trabalho e seis entrevistas publicadas. Publicamos, na semana passada, a última entrevista da primeira rodada planejada para o primeiro semestre deste ano. Foram cerca de três meses de trabalho e seis entrevistas publicadas. O resultado dessa experiência foi ímpar. Tínhamos uma ideia de como seriam as publicações, mas mudamos de rumo diversas vezes, pois, a cada entrevista, nos surpreendíamos com as respostas e com o material que era produzido. A pergunta — à primeira vista simples — “ qual livro marcou o início da sua formação em psicanálise? ” chegou para cada psicanalista entrevistado de maneira diferente, o que provavelmente tem a ver com o percurso que cada um tem e construiu e com o que marca a relação de cada um com essa coisa que convencionamos chamar de psicanálise — seja a relação com uma certa língua, com a literatura, com a loucura, com a irreverência, com as contradições ou mesmo com a inventividade. Ser entrevistadora, escutar o relato da formação de um psicanalista com quem estabelecemos certo tipo de transferência, foi como, de repente, tornar-se uma intrusa em uma história — poder acompanhar e fazer perguntas que, em outros espaços, podem não ser bem-vindas. Freud é o autor mais comentado nas entrevistas como o que marca a entrada na psicanálise e o contato com o que é o inconsciente. Os textos freudianos citados foram A Negação , A interpretação dos Sonhos , Introdução ao narcisismo e Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Não poderia ser diferente, afinal, são esses textos que formulam, pela primeira vez, esse algo que escapa da consciência e que afirma: o eu não é senhor em sua própria casa. Além disso, a literatura apareceu nas entrevistas como aquilo que complementa e dá suporte aos estudos, justamente por nos contar algo sobre a subjetividade humana, seus sofrimentos e controvérsias. Essa foi a primeira proposta das entrevistas, mas outras já estão em curso, com novas perguntas e conversas mais longas. O que virá a seu tempo, pois depende de uma série de fatores — e não apenas da vontade das entrevistadoras. De modo geral, nos interessa documentar e fazer circular esses fragmentos que ilustram como pode se dar a formação de psicanalistas, dar espaço para que diferentes histórias e percalços possam ser narrados, pois consideramos fazer parte daquilo que se transmite às novas gerações. Assim, temos notícias das mudanças de cada tempo, das divergências práticas e teóricas e do que permanece como fundamental na formação de um psicanalista. Os entrevistados (em ordem alfabética): Allan Kenji - Link para entrevista. Ana Paula Fonini - Link para entrevista. Elina Sartori - Link para entrevista. Luciano Elia - Link para entrevista. Pedro Heliodoro - Link para entrevista. Pedro Morales Tolentino Leite. Link para entrevista. Todas as obras e autores citados pelos entrevistados, para aqueles que se interessaram em conhecê-las (em ordem alfabética): Alain Didier-Weill – Inconsciente Freudiano e Transmissão da Psicanálise (1988) Antonino Ferro – [obra não especificada] Austregésilo Carrano – Canto dos Malditos (2004) Clarice Lispector – [obra não especificada] E.T.A. Hoffmann – O Homem da Areia (1816) Fiódor Dostoiévski – Niétotchka Niezvânova (1846) Goethe – Fausto (1790) Guimarães Rosa – [obra não especificada] Jean-Claude Milner – A Obra Clara (1995) Oswaldo di Loreto – Casos e Causos Acontecidos no Tempo das Diligências (2009) Radmila Zygouris – [obra não especificada] Sigmund Freud: A Interpretação dos Sonhos (1900) O Caso Dora (1905) Introdução ao Narcisismo (1914) O Infamiliar [ Das Unheimliche ] (1919) A Negação (1925) Convidamos vocês leitores a acompanharem e se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!

  • entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Pedro Heliodoro Tavares

    A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise.  Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan. Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.  De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas. Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura.  Já publicamos a entrevista com Pedro Morales Tolentino Leite , Ana Paula Fonini , Allan Kenji Seki , Elina Sartori  e Luciano Elia . E agora publicamos a sexta rodada com Pedro Heliodoro. Pedro Heliodoro, em seu percurso formativo e de trabalho, atuou como Professor Adjunto na Área de Alemão no Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras da Universidade Federal de Santa Catarina até o ano de 2024; anteriormente (2011-2018) Professor-Doutor da área de Alemão - Língua, Literatura e Tradução da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Doutor em Psicanálise e Psicopatologia pela École Doctorale Recherches en Psychanalyse da Université Paris VII (Paris-França) (2005-2008), bem como Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003-2007). Realizou Pós-Doutorado junto à Pós-Graduação em Estudos da Tradução - UFSC (2010-2011) investigando as traduções da obra de Sigmund Freud. Foi pesquisador-visitante no Zentrum für Literatur- und Kulturforschung (2016-2017) em Berlim - Alemanha. Atualmente, coordena com Gilson Iannini a coleção "Obras Incompletas de Sigmund Freud" (Ed. Autêntica), edição da qual é também o coordenador de tradução e revisor técnico. Pedro é autor dos livros "Versões de Freud" (7Letras, 2011), "Fausto e a Psicanálise" (Annablume, 2012), "Freud & Schnitzler" (Annablume, 2007) e coorganizador de "Tradução e Psicanálise" (7Letras, 2013) e "Psicanálise entre línguas" (7Letras, 2016). Trabalha como psicanalista clínico na cidade de Florianópolis/SC. A resposta de Pedro Heliodoro à pergunta “ qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista ” foi transcrita abaixo, mantendo a primeira pessoa do singular: [Pedro] Bom, primeiramente obrigado pelo convite. Fiquei muito feliz de poder dividir aqui uma coisa que foi tão cara para mim, que é relembrar que obras ou qual obra em maior nível acabou influenciando o meu interesse pela psicanálise, a minha entrada em uma formação em psicanálise. E confesso que não foi fácil essa pergunta, que parece uma pergunta tão simples. Por coincidência, eu acabei de ser convidado para uma outra atividade que é “Um livro que marcou a minha vida”, que está sendo organizada pela Maiêutica Florianópolis. E quando se fala “Um livro que marcou a minha vida”, eu diria que o Fausto  de Goethe, que foi até o objeto do meu doutorado, em 2007, em que eu fiz relações do mito de Fausto, não só o do livro de Goethe, e o Seminário 23  de Lacan. Mas quando eu comecei a me interessar pela psicanálise, na verdade, eu estava fazendo a graduação de Psicologia na UFSC, então é legal saber que vocês também vêm daí, foi ótimo saber dessa coincidência…  Naquela época, eu me lembro que eu estava começando a ficar desanimado com o curso de Psicologia, não era bem aquilo que eu imaginava. E tinha uma questão de que eu tinha feito já um intercâmbio para a Alemanha, dois anos antes de começar a estudar psicologia, e me lembro que muitas vezes quando apareciam termos em alemão na psicologia, as pessoas falavam “Ah, o Pedro dá aula particular de alemão, então vamos ver com ele o que que é essa palavra”.  Eu me lembro que essa questão da correlação da linguagem, das palavras, seja no sentido mais linguístico, mais literário, começou até a me mover a pensar “Será que eu continuo na psicologia? Será que eu vou para um curso de letras?”. E aí veio a psicanálise. A psicanálise veio em uma disciplina que na época era intitulada Escolas Psicológicas I, II e III , eu não me lembro se a psicanálise estava colocada como II ou III, não me lembro exatamente. E aí me abriu essa questão, justamente, da dimensão da linguagem na subjetividade.  Então, assim… se for falar de uma obra que marcou a minha entrada para a formação na psicanálise… claro, a gente passa pelos óbvios. Tem A Interpretação do sonho  que, por sinal, a gente está agora para lançar na série Obras Incompletas  da Autêntica, é o próximo lançamento. Então, A Interpretação do sonho  certamente. Eu li primeiro aquele texto mais resumido sobre o sonho, depois A Interpretação do sonho , Os três ensaios sobre a teoria sexual , tudo isso foi muito importante. Mas eu me lembro que a partir da disciplina eu fui buscar uma formação em psicanálise. Eu não sabia muito bem como e cheguei até a Maiêutica Florianópolis na época, ali no final da década de 90, acho que 98 ou 99, e estava começando um Cartel de Psicanálise e Arte. E o primeiro texto que foi trazido pra gente estudar foi o Das Unheimliche , que era traduzido naquela versão da Standard Brasileira - a única disponível na época - como “O estranho”... isso já me causou estranheza, né? Uma estranheza de fato, uma infamiliaridade de “Como assim?! Não é bem isso”. E aquele texto pra mim acho que foi fecundo de diferentes formas. Eu acho que em primeiro lugar por trazer essa importância da não obviedade do que está por trás dos fenômenos da linguagem e da tradução. De ver como uma palavra de uso tão cotidiano numa língua parece ser intraduzível para uma outra. Esse não isomorfismo léxico.  Isso já começou a me chamar a atenção, de aquilo que a Barbara Cassin, até eu tô aqui com o Dicionário dos Intraduzíveis , ela fala justamente que Das Unheimliche é uma dessas palavras que são intraduzíveis porque elas não cessam de não se traduzir. Anos depois, na verdade, em 2019 por ocasião dos 100 anos da publicação do texto do Freud, eu tive a oportunidade de junto do Ernani Chaves fazer essa tradução do O Infamiliar . Foi pra mim um grande presente, nesse sentido, poder pensar junto ali; e isso foi super discutido — na verdade não só com o Ernani, mas com o Gilson Iannini, com o Romero Freitas —, porque realmente é um texto que me parece que traz essas diferentes dimensões. Traz a dimensão da questão do inconsciente não operar com a mesma lógica da consciência, quando a gente pensa em lógica, na lógica aristotélica da não contradição, quer dizer, que uma coisa ou é uma coisa ou é o seu contrário, ela nunca pode ser o seu contrário e em si. E esse texto desafia justamente essa lógica, ele aponta para uma lógica mais paraconsistente. De que, como o Freud vai desenvolvendo, a familiaridade como que ela se confunde com a infamiliaridade. Como que o heimliche se confunde com o unheimliche . Então me chamou atenção para isso na psicanálise, para essa ideia muito particular de negativo… eu vi uma outra entrevista de um outro psicanalista que foi influenciado pelo Die Verneinung , né, A negação  ou A negativa , dependendo da tradução do Freud, que é um texto que dialoga com aquela ideia do sentido antitético das palavras primitivas e que aponta também para isso de que a experiência estética é até aquilo que, na formação do sujeito, precede a própria ética.  Isso sempre me chama a atenção quando a gente vai tentar falar com uma criança sobre “o certo e o errado”, e a criança antes de ter contato com “o certo ou o errado”, nós falamos “ai que feio isso que você fez”, “olha, que lindo que ajudou o amiguinho”. Quer dizer, a gente de alguma maneira acaba percebendo que essa ideia do atraente, do repulsivo, daquilo que traz a importância da doutrina sobre os sentidos, sobre os sentimentos, na estética, vai para muito além de uma doutrina do belo. Quer dizer, tem alguma coisa aí daquilo que apela para as sensações. E então foi um texto que me chamou muito a atenção de como no ensaio do Freud, ele precisou justamente primeiro fazer um mergulho linguístico lexical.  E aí uma coisa que depois também foi para mim uma descoberta naquele momento, de muitos autores que ele cita que são do romantismo alemão, como Schelling, Schlegel… Quer dizer, essa coisa que falava dessa potência que já estava na cultura da expressão alemã desde um século antes. Essa preocupação em ir para além de uma intelectualidade pautada meramente na racionalidade. Uma intelectualidade que apelasse também para a questão das sensações, para a questão da vida psíquica, no sentido emocional, afetivo. Então houve primeiro essa questão do fascínio com esse mergulho linguístico, etimológico, com a história do conceito e depois aquele presente que ele dá, aquela análise colocando o conceito para conversar com a literatura romântica do E.T.A. Hoffmann, O Homem da areia , dessa literatura de mistério que também para mim foi fundamental para pensar a subjetividade como um lugar onde a verdade tem estrutura de ficção. Quer dizer, pensar isso para a clínica. Para mim, do ponto de vista epistemológico, foi uma coisa que provocou uma grande viragem, sobretudo porque as outras correntes psicológicas que estavam sendo vistas no curso de psicologia naquela época se pautavam muito no empirismo, se pautavam muito na racionalidade… fossem as fenomenológicas, fossem as doutrinas mais norte-americanas, como o behaviorismo, depois disso derivando também para outras formas mais modernas de alguma coisa que apela mais para o cognitivo, para o racional. Mas me chamou atenção justamente essa ideia, de como no alemão a palavra “realidade” vem daquilo que tem um efeito. Wirking é ter efeito. Wirkung  é um efeito de um remédio, por exemplo, de uma droga. E a Wirklichkeit  é aquilo que opera como um efeito de realidade, como efeito de verdade. Isso foi importante para perceber que em uma análise o imaginado não é menos real do que, digamos, aquela realidade objetiva, a realität  que está posta para o sujeito.  Eu acho que nesse sentido foi um artigo tão breve, mas que me abriu tantas portas. Foi uma coisa que, realmente, a partir dali também pautou a minha formação com um pé na germanística e um pé na psicanálise. Fez despertar esse interesse pelo literário, pelo linguístico, pelo tradutológico. E ver como isso participa da experiência analítica. Quer dizer, como a experiência analítica, em maior ou menor grau, é uma experiência que tem a ver com isso. Freud já trazia esse símile da tradução desde  A Interpretação do sonho , que é a maneira de tentar transpor alguma coisa que está posta num sistema ininteligível e tentar, passando pelo afetivo e, a partir do afetivo, fazer uma representação que possa ter uma inteligibilidade. Acho que foi também por aí essa influência.  [Carol] E é legal que, pelo que você fala, marcou tanto o seu trabalho como analista, mas também o próprio trabalho que você decidiu seguir com as traduções .   [Pedro] Na verdade, até era uma coisa curiosa, porque eu na época em que estudava psicologia, como eu tinha aprendido alemão — tinha ganhado essa bolsa pra fazer um intercâmbio escolar na Alemanha —, de maneira muito intuitiva eu dava aula particular, sem nenhuma formação especializada para isso. Eu dava aula particular de alemão e cursava psicologia. E depois, quando eu terminei a psicologia e fui fazer o mestrado em literatura, ali teve muitas obras do Schnitzler que me influenciaram, que foi aquele autor que Freud falou ser o seu duplo. E no doutorado também trabalhei com o literário. Mas essa questão da tradução surgiu, na verdade, quando a obra do Freud entrou em domínio público e as pessoas começaram a perguntar “Ah Pedro, qual é a melhor tradução que tem agora no português?” E aí eu via, poxa, não é tão simples assim dizer qual é a melhor. Melhor em que sentido? Melhor no sentido conceitual? Melhor no sentido fraseológico? Melhor no sentido estilístico? Até eu escrevi aquele livro “Versões de Freud” por conta disso. E eu não imaginava que tinha espaço para uma outra tradução. E foi aí que o Gilson Iannini fez o convite e a gente começou o projeto. Então foi uma coisa não muito planejada, na verdade. [Carol]  E que é um projeto que tem gerado várias contribuições para a gente hoje.  [Pedro]  É, eu tô bem animado. Agora que vem A Interpretação do sonho,  né? Nós tendemos a  acreditar que vai sair nesse próximo semestre, vamos ver. É bem complicado, assim que você inicia tem uma série de remissões internas, dá uma trabalheira. Mas a revisão está se encaminhando. E vem com essa provocação, com essa proposta de “Interpretação do sonho” e não “dos sonhos”, né? A gente quer trazer aí com esse singular.  Essa é a sexta entrevista de uma série sobre a temática do início da formação do psicanalista e a leitura que lhe marcou. Com essa entrevista, encerramos esse trabalho, mas outros estão em andamento. Confira também as entrevistas realizadas com Pedro Morales Tolentino Leite , Ana Paula Fonini , Allan Kenji Seki , Elina Sartori e Luciano Elia . Convidamos vocês leitores a acompanharem e se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!

  • Grupo de estudos: Circuito sobre luto e melancolia

    Como o sujeito elabora suas perdas? O que acontece no trabalho psíquico do luto? Como o narcisismo se entrelaça com o processo de renúncia ao objeto de amor? Essas são algumas das perguntas que nortearão nosso grupo de estudos, cujo objetivo é explorar as noções psicanalíticas ligadas ao luto e à melancolia . O grupo terá enfoque sobre os processos relacionados ao luto , começando os encontros no final de outubro de 2024, com uma pausa em dezembro e retorno ao final de janeiro de 2025. Nesta primeira parte, faremos quatro encontros quinzenais para explorar noções fundamentais relacionadas ao luto, como a morte e a transitoriedade da vida, o narcisismo, a identificação e o desejo. O ponto de partida será a compreensão do luto como um paradigma para entender como o sujeito elabora suas perdas e como essas perdas afetam sua relação com o narcisismo e o desejo. Ao longo dos encontros, discutiremos textos fundamentais da psicanálise que tratam das estruturas do luto e do narcisismo, além de examinar a renúncia ao objeto de amor e os processos de identificação que emergem durante o luto e a melancolia. O grupo é aberto e gratuito. Para realizar a sua inscrição, basta preencher os dados cadastrais abaixo até o dia 24/10 e aguardar a confirmação de participação que enviaremos para o seu e-mail. Data e horário:  Sábado, das 11h até às 12h20 (Brasil) - das 15h até às 16h20 (França e Itália) Encontros quinzenais com início no final de outubro (26/10/24) Clique aqui para ter acesso ao Programa de estudos . Faça sua inscrição aqui: https://forms.gle/t9U2G7DTouEYaSZeA

  • Convite: Circuito sobre luto e melancolia - parte 2

    Início em 22/03 - Inscrições abertas para novos participantes! “Só há pouco percebi que escrever o romance é impossível. Para contar a história de uma vida regida pela necessidade, não posso assumir, de saída, um ponto de vista artístico, nem fazer alguma coisa 'cativante' ou 'comovente'. Vou recolher as falas, os gestos, os gostos de meu pai, os fatos mais marcantes de sua vida, todos os indícios objetivos de uma existência que também compartilhei." No cotidiano, na clínica, escutamos diferentes narrativas ao redor de perdas e ausências. As vezes, vindas como frases curtas, descritivas, as vezes aos prantos, com raiva, constatações baixas ou até mesmo com silêncios. Começamos um grupo de estudos no ano passado pelo Palavra e Vereda, onde começamos a estudar o tema luto e melancolia, a partir da perspectiva freudiana. O trecho acima e os falados no vídeo fazem parte do livro “o lugar”, escrito por Annie Ernaux. Ao perder seu pai, Ernaux cria. Compreende que a perspectiva com a qual escolhe narrar a história é importante em si, para a própria história dos dois. Escolhe não uma grande comoção que poderia criar com as palavras as quais tem acesso. Faz uma renuncia. Traz pra dentro do texto as palavras que escutava do pai, que ele repetia, os seus gestos e a história dos dois. No grupo, conversamos muito sobre essas histórias ao longo dos encontros. Nessa continuação dos nossos estudos, é com a leitura e conversa sobre o texto que começaremos a segunda parte do circuito nesse ano. Em seguida, como auxílio, comentário da leitura feita de luto e melancolia, discutiremos o capítulo 1 do livro de Dunker. Se por um lado as perdas fazem parte da vida, o tempo, o trabalho e os recursos que cada um possui para a passagem da dor em sofrimento, como diz Cristhian Dunker em seu livro, não está dado. O que acontece quando a perda recai sobre o próprio eu, como uma sombra que não se dissipa? Quando a tristeza se cristaliza e a sensação de perda se instala mesmo sem uma ruptura ou morte evidente? Pela curiosidade em aprofundar um outro lado da perda e da relação com o tempo, também estudaremos a depressão e melancolia, a partir dos textos A depressão é a perda de uma ilusão, de J. D. Nasio, e O tempo e o cão, da Maria Rita Kehl. As inscrições são gratuitas e estão abertas! Começamos neste sábado, dia 22, e seguimos juntos por um mês. Se quiser participar. Te esperamos lá!

  • 💭Circuito sobre luto e melancolia: Qual a continuação de nossos estudos no grupo?

    Nos encontros do Circuito sobre Luto e Melancolia, mergulhamos nas obras de Freud para pensar a diferença entre o luto e a melancolia. O luto é um processo psíquico de reconstrução simbólica diante da perda, envolvendo tempo, pulsões e as narrativas que temos à disposição para elaborar o que se foi. Mas e quando a perda recai sobre o próprio eu, como uma sombra que não se dissipa? Freud usa essa imagem para falar da melancolia — um estado em que a dor se volta para dentro, tornando-se um peso difícil de nomear. Nesta segunda parte do circuito, aprofundamos essa discussão a partir de diferentes perspectivas: a narrativa de Annie Ernaux sobre o luto de seu pai, o comentário de Christian Dunker sobre a obra luto e melancolia e para pensar o tema da depressão e melancolia, estudaremos nos três encontros finais do grupo as obras "A depressão é a perda de uma ilusão", de J. D. Nasio, e "O tempo e o cão", de Maria Rita Kehl. Como pensar a depressão, a melancolia e suas distinções do luto? Seguimos com nossas perguntas. 📌Inscrições para a segunda parte do grupo através do formulário: https://forms.gle/dAZT4MGZMebe4wFf8

  • 💭 Circuito sobre luto e melancolia: como foi a primeira parte do nosso grupo de estudos?

    Perder faz parte da experiência de viver. Da infância à vida adulta, todos enfrentamos rupturas, separações e transformações. Tais mudanças naquilo que nos enlaça a uma experiência, uma pessoa ou uma identidade podem (ou não) desencadear um trabalho simbólico, social e psíquico – o luto. Inspiradas pelas reflexões que emergiram em nossas discussões coletivas de casos clínicos, criamos o Circuito sobre Luto e Melancolia: um grupo de estudos aberto, dedicado a ser um espaço de trocas e aprofundamento sobre o tema. Por ser uma temática ampla, traçamos um percurso na obra freudiana que nos permitisse compreender o luto dentro de um contexto maior. Iniciamos com os ensaios de Freud sobre a morte, a guerra e a temporalidade, para pensar como a finitude se inscreve na psique. Se em seu contexto Freud falava sobre a necessidade de refazer expectativas após as perdas de ilusões, ideais e a brutalidade da guerra, no grupo, um dos contextos que discutimos, foi a recente pandemia de COVID-19 e seus efeitos sociais, econômicos e psíquicos, com as mortes súbitas por conta da doença, ou ainda a falta de ritos coletivos pela perda do ente querido devido às medidas sanitárias necessárias daquele momento. Em seguida, nos voltamos para os textos sobre o narcisismo e a constituição do aparelho psíquico, pois na relação do eu consigo mesmo e com os outros que se forma a base psíquica que sustentará (ou desorganizará) o processo de luto. Avançamos para o sistemático Inibição, Sintoma e Angústia (1927), onde Freud revisa suas teorias e aprofunda a compreensão dos mecanismos psíquicos diante do sofrimento, comentando também sobre o luto. Por fim, chegamos ao estudo central sobre o tema: Luto e Melancolia (1917), onde Freud distingue o luto da melancolia e revela como a perda pode, em certos casos, levar à identificação com o objeto perdido, produzindo um sofrimento psíquico profundo e prolongado. 📌 Inscrições para a segunda parte do grupo através do formulário: https://forms.gle/dAZT4MGZMebe4wFf8

  • entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Elina Sartori

    A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise. Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan – é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em 9 seminários, com destaque para o seminário 11 e 13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan. Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas. Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura. Já publicamos a entrevista com Pedro Morales Tolentino Leite , Ana Paula Fonini , Allan Kenji e agora publicamos a quarta rodada, com Elina Sartori. Elina possui graduação em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atualmente atua como psicanalista clínica na cidade de Florianópolis/SC. A resposta de Elina Sartori à pergunta “ qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista ” foi transcrita abaixo, mantendo a primeira pessoa do singular: “Quando eu tomei contato com a pergunta me veio uma avalanche de coisas. Fiquei pensando como é difícil escolher um livro, um texto só, para falar do quanto ele é ou foi marcante na minha formação como psicanalista. E é interessante né, perguntar “qual o livro?”, porque o que eu fiquei pensando é que mesmo antes de se saber que você está em uma formação como psicanalista, leituras que nos atravessam e atravessaram a vida também são parte dessa formação. Então, eu penso que… eu fui uma adolescente muito leitora, voraz, de explorar muitos autores, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector… e hoje eu vejo o quanto esses autores compõem a minha formação também como psicanalista, nessa possibilidade de já ir pesquisando algo dos sentimentos humanos, dos conflitos também, daqueles personagens. Muitos autores contemporâneos também, mais adiante fui explorando, e eu acho que a literatura, literatura japonesa, africana, brasileira, enfim, italiana, fazem muito parte da gente estar apurando a nossa escuta em relação ao que aparece no consultório, na singularidade de cada um, na possibilidade de ir abrindo a cabeça para novas experiências possíveis e humanas. Mas direcionando à pergunta em relação a uma formação mais direcionada à psicanálise, eu pensei que o primeiro texto que eu tive contato, que foi em um grupo de estudos que eu comecei a participar e que tem um papel muito importante e forte na minha formação — uma formação mais aberta, não ligada a nenhuma escola específica, mas muito colaborativa com colegas, com pares —, foi o texto “ Introdução ao narcisismo” . Foi um texto onde eu fui descobrindo a importância da metapsicologia freudiana, do quanto essa teorização sobre o aparelho psíquico, sobre o funcionamento mental, sobre as questões tópicas, dinâmicas, econômicas e como tudo isso vai se formando e funcionando de acordo com a teoria, pra mim foi apaixonante. Foi a partir desse texto que eu me dei conta do quanto aquilo era algo que a princípio eu tava tomando contato, mas que eu queria muito aprofundar, saber e ler sobre. Então foi um momento bem chave, assim. Eu me lembro desse texto de uma forma muito forte na minha formação. E explorar o texto… nele também fala sobre as questões do ideal do eu, sobre as diferentes estruturas, neurose e psicose. E aquilo era um alvo muito grande da minha curiosidade como estudante, mas foi também o que abriu as portas para eu ir explorando e estudando cada vez mais. Enfim, é o que me recordei agora, da base daquele texto que iniciou a minha formação. Espero ter respondido a questão e fico disponível para qualquer outra questão que possa ter ficado. Um abraço".

  • entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Allan Kenji

    A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise.  Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan. Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.  De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas. Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura.  Já publicamos a entrevista com Pedro Morales Tolentino Leite , Ana Paula Fonini Araújo  e agora publicamos a terceira rodada, com Allan Kenji.  Allan possui Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) (2011), é mestre (2014) e doutor (2020) em Educação pela UFSC. Desde 2021, realiza Estágio de Pós-Doutorado na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais (GREPPE). É Pesquisador Visitante na Université Paris 8 - Vincennes-Saint-Denis, na qual desenvolve projeto de pesquisa sobre a indústria de Tecnologias Educacionais Digitais na França no contexto pós-pandemia do SARS-COV-19. Escreveu e publicou os livros Desventuras dos Professores na Formação Para o Capital (2019) e O capital financeiro no ensino superior brasileiro  (2021).  A resposta de Allan Kenji à pergunta “ qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista ” foi transcrita abaixo, mantendo a primeira pessoa do singular. "Das leituras que fiz no final do curso de Psicologia, lembro-me de uma indicação que foi muito importante na minha constituição como analista e que veio da minha supervisora à época no SAPSI, Beatriz Molinos. Ela me recomendou um livro do psicanalista italiano Antonino Ferro. Recordo-me de muito pouco da obra em si, mas o que me marcou foi um princípio ético. Ele dizia: nós temos a “psicanálise freudiana”, “a psicanálise kleiniana”, “a psicanálise bioniana”, mas, quando abrimos a porta do consultório e fazemos entrar a criança, temos apenas “a psicanálise”. A partir dali, a psicanálise é uma coisa única, vulnerável, que será desafiada sem tréguas pelos próximos 30 ou 40 minutos – em cada sonho, desenho, brincadeira, em cada observação dita como se fosse nada ou em cada um desses pequenos atos que constituem uma análise. Mas e se algo que acontece no consultório for estranho demais ao que é a prática clínica? Se as coisas que o paciente diz e faz não funcionarem bem com as coisas que a teoria diz e com aquilo que o psicanalista sabe fazer com elas naqueles milissegundos que contam nos atos de análise? O princípio que aprendi com ele, ou pelo menos eu o li assim, é que: na dúvida, escolha o paciente. Escolha o paciente na ausência de sentidos, naquilo que é esquisito, louco, sem saída. E, no limite, fique com o paciente, mesmo que isso signifique ter que reinventar toda a psicanálise para poder tratá-lo. Porque todo o resto – a vaidade do analista, a imagem que faz de si (ou a que ele supõe que os outros fazem), suas filiações teóricas e as coisas de “Escolas” de psicanálise – tão importantes fora do consultório – não devem nunca ter mais importância do que a capacidade da clínica de escutar aquele paciente (singular). Não há algo novo aí. Esse princípio ético está na fundação da psicanálise. A psicanálise não teria nascido – ou, pelo menos, seria muito diferente – se Freud, diante do vazio de saber que seus pacientes produziam, da inconsistência das técnicas e da esterilidade dos recursos da medicina moderna, não houvesse escolhido ficar com os seus pacientes. Mesmo que isso tenha significado fundar uma nova medicina, com outros fundamentos e outras técnicas. E ele está lá, presente na clínica das psicoses de Lacan, no Discurso de Roma, e nas várias rupturas que a psicanálise produziu quando ela própria instituiu para si certa ortodoxia. Eu não me tornei “Ferroniano”, mas, olhando retrospectivamente, aquela leitura, naquele momento, me ajudou muito a definir minha própria clínica nos anos que se seguiram. E, de certa forma, a acreditar que esse fundamento ético da psicanálise é um fio que costura todo o edifício filosófico, científico e político da psicanálise em uma coisa só. Ainda que cada um de nós tenha de descobrir, não sem alguma angústia, a sua própria maneira de formar um nó que nos amarre com esta Coisa, que não passa de uma invenção, que é a psicanálise. O segundo livro que foi muito importante e, na realidade, marcou o momento da minha decisão pela psicanálise foi Niétotchka Niezvânova . Na última disciplina que fiz na graduação, escrevi um ensaio sobre este livro que amarrou uma posição política muito pessoal sobre a forma como a psicanálise deve considerar a literatura e que define certos termos do que eu penso, também, que deve ser a relação entre a teoria e a prática clínica. Este é um livro único por várias razões. É uma dessas peças-chave que, se encontrada, permite refazer a genealogia da subjetividade de todo um tempo histórico. É carregado da ruptura com o romantismo e o pragmatismo e, por isso, embora antecipe o realismo psicológico, constitui uma dessas obras que não encaixam muito bem em lugar algum. Trata-se de uma pequena novela inacabada e que, apesar disso, apresenta um ponto de ruptura da narrativa que combina perfeitamente com a história que conta. Niétotchka é uma menina que cresce na experiência de toda sorte de abandono e de violência e que, de alguma forma, expressa uma convicção firme e quase impertinente com a vida e o próprio desejo. Ser vítima não parece constituir para ela uma tese, e nem viver parece engendrar exatamente uma solução. Ela não deixa, então, de experimentar os deslocamentos, a fragilidade e a busca desesperada por pertencimento. O texto começou a ser escrito em um momento no qual a Europa foi varrida pela Primavera dos Povos (1848/1849) e marcado pela prisão do autor, pela repressão czarista, devido à sua proximidade com os socialistas utópicos – reflexo da violência da luta de classes nas últimas décadas do antigo regime. Por isso, ele releva também as tensões de classes, a violência, os abusos, as misérias e os deslocamentos subjetivos que são próprios de uma modernidade que ainda não nasceu. Talvez por tudo isso, exista ali um “antirromantismo” e uma posição analítica em relação à subjetividade muito singular, que se constitui entre dois tempos. É bem possível que, pela mesma razão, este livro consiga articular uma posição de escuta, de forma muito inteligente e visceral, sobre questões de ordem psicológica tão profundas e fundamentais que antecipam em mais ou menos cinquenta anos a psicanálise". Essa é a terceira publicação de uma série de entrevistas que estamos realizando com alguns psicanalistas sobre a temática do início da formação e a leitura que lhe marcou. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack  para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!

  • entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Ana Paula Fonini

    Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise.  Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan. Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.  De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas. Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura.  Confira a segunda entrevista, realizada com Ana Paula Fonini. Ana Paula é psicanalista, trabalhadora da Saúde Pública e da Rede de Atenção Psicossocial no município de Florianópolis/SC, no CAPS II Ponta do Coral e em consultório. Membro do Laço Analítico/ Escola de Psicanálise – subsede Florianópolis. A resposta de Ana Paula à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista?” foi transcrita abaixo mantendo a primeira pessoa do singular.   “Pensando na nossa formação de analista, e pensando também de um modo geral na vida, eu tenho dificuldade de responder sobre uma coisa única que tenha me marcado. Acho difícil porque, na verdade, para mim são alguns livros, algumas pessoas. Não são tantos, incontáveis, mas são alguns. Então, a primeira coisa que eu pensei diante da sua pergunta foi que eu não tinha essa resposta prontamente, o que é interessante, uma oportunidade de repensar esse momento inicial. Eu acho que tem um texto, uma obra que fez com que eu realmente me voltasse para querer ser analista, querer saber o que era isso, e essa obra foi A interpretação dos sonhos. Mas para chegar nele vou te falar um pouco do início da minha relação com a psicanálise. A psicanálise não é uma coisa que fez parte da minha vida na infância, ou no início de adolescência, não era algo familiar. Não conhecia pessoas que faziam análise, não fazia parte do meu cotidiano. A primeira aproximação foi quando eu tinha uns 17 anos, em um momento em que fiquei muito mal. Tinha saído da cidade em que eu morava, no interior do Paraná, para estudar e depois de um ano fora algumas coisas ficaram muito difíceis, entre elas, não saber o que estudar, mas certamente não era o único motivo do meu sofrimento. Então, a irmã do meu namorado, que era psicanalista, e de quem eu tinha escutado pela primeira vez palavras como cartel, jornada de cartéis, escola de psicanálise, me indicou uma analista. Eu marquei um horário,  precisava de alguma ajuda naquele momento pois não sabia muito bem o que estava me causando aquele sofrimento todo, acho que sabia bem pouco na verdade; mas queria que alguém soubesse e, quem sabe, me livrasse daquilo. Aquela primeira sessão foi uma experiência absolutamente estranha para mim, porque aquilo não era uma conversa, por falar de algo íntimo para alguém que nunca tinha visto, porque eu estava mal e esperava um tipo de acolhida e de resposta que não ocorreu. Lembro que eu entrei e falei o que era possível falar naquele momento, talvez tenha mais chorado do que falado. Foi uma sessão curta, e ela me falou uma única frase no final da sessão e depois me perguntou se eu queria voltar. Eu disse que queria voltar, mas só disse isso porque me parecia o modo mais rápido de sair daquela situação de mal-estar. Eu sabia que não voltaria, pelo menos não imediatamente. O que ela me disse não tinha nada de descabido, pelo contrário, situava muito bem uma questão no sintoma de que me queixava e me implicava nele. Por isso mesmo, essa frase, que continha uma interpelação, me deu trabalho em análises seguintes. Também por isso, foi insuportável. Foi necessário um tempo para que eu pudesse escutar aquilo sem querer sair correndo.   Como disse, não sabia o que queria estudar, “quem eu queria ser”. A psicologia não foi o primeiro curso que fui fazer. Eu tinha entrado em um curso de informática, depois de economia, que me levou para a área de humanas. Parei economia e fiz vestibular para ciências sociais e psicologia. Minha preferência era fazer ciências sociais, mas passei em psicologia. No curso de psicologia foi meu segundo encontro com a psicanálise e o primeiro com Freud e com o texto A Interpretação dos Sonhos . Tive uma professora de psicanálise marcante, que pôde me proporcionar estar diante dos textos, fazer as discussões, pensar a clínica. E era muito curioso, porque ela era uma figura com uma apresentação que eu achava super careta, o modo de se vestir, e ao mesmo tempo ela falava coisas que eram nada caretas. Um dos textos que estudamos foi alguns capítulos da Interpretação dos Sonhos. Esse texto foi uma abertura, onde eu encontrava algo comum, comum tanto no sentido de cotidiano, habitual, quanto de algo partilhável, que eu experienciava. E falava do comum de um modo extraordinário. Os sonhos eram muito marcantes para mim, frequentes, detalhados, lembrados, às vezes por muitos dias, ou até por anos. Eles foram material primordial nos primeiros anos de análise, o barro de construção de muito desse trabalho. Por isso, foi fundamental encontrar um texto que falava de uma experiência muito íntima e intensa, a experiência do sonho. É um dos textos que inaugura a psicanálise, toda a apresentação e desenvolvimento do inconsciente, em que também fica muito claro o lugar da linguagem na psicanálise, que Lacan tão bem retomou. Mas naquele momento o que me tocava era que aquilo conversava com alguma coisa que eu sentia e não sabia nomear, não sabia o que era. Esse texto teve esse lugar, de me mostrar que a psicanálise falava coisas que tinham relações com o que as pessoas vivem, com o que as pessoas sentem. Um sonho é o que me leva a procurar pela segunda vez uma análise, na qual pude ficar por bem mais tempo. Penso que a primeira experiência, apesar de insustentável, deixou uma possibilidade em aberto, um enigma a ser respondido. Esse encontro com Freud fez ser possível querer responder. Respondida a sua pergunta inicial, gostaria agora de comentar de outro livro, que não é de psicanálise, mas que foi importante na minha formação. Menos pelo livro em si e mais pelo que derivou dele. Foi o livro Canto dos Malditos , que depois deu origem ao filme Bicho de sete cabeças . Durante minha graduação, no curso de psicologia, não tive nada de saúde mental, reforma psiquiátrica, sobre o SUS, não fazia parte do currículo, não era discutido. Mas tive bons amigos na faculdade e ter bons amigos é das melhores coisas na vida. Além de amigos, gostávamos muito de estudar juntos, tínhamos muitos interesses parecidos e muita curiosidade. Não tenho certeza, acho que foi em 90, eu estava no primeiro ano de psicologia e a gente chamou o Austregésilo Carrano, autor do livro Canto dos Malditos  para fazer uma fala ou um debate. Essa conversa e as discussões que se seguiram me abriram inúmeras questões sobre o uso de drogas e sobre a clínica das psicoses, os “tratamentos” e toda a violência presente, violência muitas vezes revestida de cuidado e exercida não só por profissionais, mas pela sociedade de modo geral. Questões, que de modos diversos, estão presentes na minha vida até hoje e que têm um lugar muito importante na minha formação, na minha clínica, em como eu penso o trabalho de analista, como construo o meu trabalho na saúde mental e no meu consultório. Essas marcas também foram decisivas para que eu escolhesse estar no Laço Analítico. São marcas que levaram um tempo para se fazerem escolhas. Muitas vezes vamos escolhendo e só depois identificamos e reconhecemos a partir de que marcas essas escolhas se deram. Te falando e pensando contigo, acho que a formação é assim: o que me move no primeiro momento tem a ver com algo que me afeta, um sofrimento, uma busca por entender algo que para mim era incompreensível, por me livrar daquilo a que estava agarrada. Então, acho que a formação vai articulando as nossas questões, o que vamos encontrando na análise, na clínica, com as obras que dialogam com isso. É bom que a gente possa seguir encontrando textos, livros, gente, que nos afetem, mexam com o que já está tão estabelecido. Acho, inclusive, muito difícil ser analista sem ter questões, sem ter perguntas, incômodos. Tem as respostas que vamos construindo com novos textos, com outros autores, em discussões, com colegas que nos fazem repensar coisas, desenvolver outras. E tem também o que encontramos em cada momento que retornamos num texto, a cada retorno tem algo que a gente revê e reelabora no trabalho e pensa ‘Como eu nunca tinha lido isso desse jeito?’ Acho que isso é o que faz a formação, que a gente possa ler o que não tinha lido antes.” Essa é a segunda publicação de uma série de entrevistas que estamos realizando com alguns psicanalistas sobre a temática do início da formação e a leitura que lhe marcou. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra! Confira também a primeira entrevista, que foi realizada com Pedro Leite .

  • Uma psicanalista peculiar

    Radmila Zygouris é uma escritora muito interessante . Ela marca de maneira inusitada a trajetória da minha formação. Leio e releio seus textos sempre que percebo estar apertada demais entre as paredes da clínica: eles abrem portas, janelas e claraboias, permitindo que o oxigênio circule novamente, dando vida às ideias. Como estamos, no Palavra e Vereda , discutindo os temas da formação do psicanalista, faz sentido trazê-la à tona, não somente por ter aparecido como uma autora marcante para um dos psicanalistas em uma das entrevistas, mas também porque sua elaboração sobre o tema é autêntica. Sobre sua trajetória, ela conta em Uma geografia peculiar  (2011) que leu Freud pela primeira vez com 16 anos, quando morava em Buenos Aires. Os livros eram em alemão e emprestados de sua amiga, filha do primeiro psicanalista da Argentina, Angel Garma. Ficou maravilhada com a leitura, embora não se recorde exatamente qual foi o primeiro livro — talvez A Interpretação dos Sonhos . Depois, na França, iniciou seus estudos universitários cursando Medicina (por ser estrangeira, era importante ter um diploma), mas, devido a dificuldades financeiras, teve de abandoná-los e passou a estudar Psicologia, curso que lhe permitia conciliar estudo e trabalho. Ao descobrir que Leclaire fazia parte do grupo vinculado a Lacan, decidiu procurá-lo para iniciar sua primeira análise, tendo de aguardar um ano em lista de espera antes de começar o trabalho. Na mesma época, frequentava os seminários de Lacan — participou por cerca de 11 anos — e esteve presente naquele que seria o último antes de sua exclusão da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Lacan estava lá em Saint’Anne, berrando como louco: ‘Não, não farei o seminário sobre o nome do pai’. Os outros estavam ali também com os olhos fora de órbita. Era um momento de grandes paixões, paixões iradas, inflamadas. Comecei a me sentir bem, confortável; tudo estava tão louco quanto na minha própria família. E foi por isso que escolhi ficar entre os lacanianos. Não foi pela profundeza do pensamento lacaniano. Foi porque os vi completamente imersos na paixão, nos gritos, no sofrimento. Senti que gostava dessa gente... Compreendam, não havia ali aquela respeitabilidade burguesa, e isso me agradava. Zygouris reconhece que seu modo de entrada na clínica foi diferente, enquanto muitos só se autorizam a iniciar o trabalho clínico após longos anos de análise, ela diz ter começado muito cedo, depois de três anos de análise. Isso era comum em sua geração: a Escola Freudiana de Paris estava em formação e Lacan precisava de membros. Ele não selecionava os melhores, mas aqueles de quem precisava. Sendo estrangeira, Zygouris destaca que foi muito bem acolhida na Escola. Os tempos eram outros, e sua geração viveu um momento em que a formação psicanalítica se dava de forma mais espontânea, menos normatizada e mais atravessada pela urgência institucional e pelo desejo de ocupar um lugar. Teve também uma experiência marcante com Jenny Aubry, uma figura relevante da psicopediatria. Trabalhando em seu serviço, passou a receber encaminhamentos de pacientes, mesmo sem ter uma instalação apropriada. Quando tentou explicar essa dificuldade à Aubry, ouviu dela: “Tenho confiança em você. Vou me aposentar em dois anos; você tem dois anos para decolar.” Foi assim que alugou um consultório e começou a atender, embora achasse que ainda não estava pronta para isso. Vale a pena ler esse texto por inteiro. Ele tem um caráter — por mais que muito pessoal — histórico, já que atravessou os dilemas daquele tempo com atenção e dedicação a eles, podemos dizer assim. Os acontecimentos não eram alheios ao que fazia. De modo geral, ela atravessa diversos assuntos: suas supervisões com Lacan, apresenta uma observação interessantíssima sobre o passe, sobre o ato de dissolução de Lacan e sobre sua heterodoxia e liberdade. Sobre esses últimos aspectos, Zygouris comenta que “As teorias são como idiomas. De vez em quando faço o seguinte exercício: tomo uma sessão e tento relatá-la em “lacanês”, em “kleinianês”, em “winnicotês” e assim por diante. Trata-se, obviamente, de graus de leitura e, forçosamente, cada grau de leitura deixa de lado algumas coisas; a leitura nunca é exaustiva”. Ao afirmar que "a leitura nunca é exaustiva", ela nos convida a uma posição ética frente ao saber : reconhecer o caráter parcial de cada construção teórica, abrir-se à multiplicidade e manter a escuta clínica em movimento, sem se fixar dogmaticamente em um único referencial. Uma postura muito bem-vinda, além de um exercício muito interessante para exercitar a escuta, de alguém que aposta na psicanálise. O Palavra e Vereda é construído por quatro psicanalistas cujo encontro não é casual; ele se enraíza em experiências compartilhadas desde a graduação em Psicologia, na política e em outras vivências críticas no trabalho clínico. Encontrar e sustentar um grupo de trabalho que se encaixe dessa forma não é trivial; para nós, produz sentido para o cotidiano do trabalho com a clínica psicanalítica. Se quiser saber mais, acesse nosso site . Boas vindas!

  • entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Luciano Elia

    A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise.  Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan. Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.  De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas. Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura.  Já publicamos as entrevistas que compõem essa série com as respostas de Pedro Morales Tolentino Leite , Ana Paula Fonini , Allan Kenji Seki  e Elina Sartori . O convidado de hoje é Luciano da Fonseca Elia. Luciano é psicanalista, professor e escritor, é formado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (1978), mestre (1984) e doutor (1992) em Psicologia Clínica e pós-doutor em Psicanálise e Criminologia (1995) pela PUC-Rio (1995). Atualmente é professor titular da Área de Psicanálise do Programa de Mestrado Profissional em Psicanálise e Políticas Públicas da Universidade do Estado do Río de Janeiro (UERJ) / campus Zona Oeste (Campo Grande). É psicanalista em formação permanente no Laço Analítico/Escola de Psicanálise, de cuja fundação em 1998 participou e do qual é hoje AME - Analista Membro da Escola e integrante de seu Coletivo Diretor. Escreveu os livros  Corpo e sexualidade em Freud e Lacan  (1995), O conceito de sujeito  (2004) e A Ciência da Psicanálise: Metodologia e Princípios  (2023). A resposta de Luciano à pergunta “ qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista ” foi transcrita abaixo mantendo a primeira pessoa do singular. “Dois livros me marcaram, mas não exatamente no início da minha formação. Eu já tinha um certo percurso quando isso aconteceu, mas acho que vale falar desses dois. O primeiro é um do Alain-Didier Weil, psicanalista de primeira hora no ensino de Lacan em Paris, foi analisante do Lacan muito jovem, assim que terminou a faculdade de medicina/ psiquiatria, tem uma história muito importante com Lacan e depois não seguiu no movimento Milleriano. Pelo contrário, quando Lacan morreu e houve a fragmentação da Psicanálise em Paris em várias instituições que se recusaram a seguir com Miller, ele fundou o Custo Freudiano (Le Cout Freudien) e foi nesse momento que chegou ao Brasil uma obra dele publicada pela Zahar chamada  Inconsciente freudiano e a transmissão da psicanálise . Na verdade esse livro nunca foi editado em francês, o original dele é brasileiro, foi organizado pelo Marco Antônio Coutinho Jorge e publicado em 1988. Naquele momento o Marco Antônio estava mais voltado para o ensino de Lacan e estava dirigindo uma coleção da Zahar chamada “Transmissão da Psicanálise” e esse é o sexto livro da série. Ele tinha contato com o Alain-Didier, depois eu vim a ter esse contato também e nos tornamos amigos. Esse livro me marcou muito pela maneira inventiva, teoricamente irreverente do Alain, como convém ao espírito psicanalítico. Assim como as consequências políticas dessa postura, digamos, dele.  Outro livro, bem diferente desse, me marcou mais adiante. Eu me formei na faculdade de Psicologia da PUC-Rio em 1978 e comecei minha prática logo depois. O primeiro livro de que falei é de 1988 e esse segundo é de 1995, então, como você pode ver, não são livros do momento imediatamente inicial do meu percurso, mas que me marcaram levando em consideração que a formação do analista é permanente e necessariamente longa, que se estende no tempo…   Esse segundo livro é A Obra Clara, do Jean Claude Milner. É um cara que não é psicanalista praticante, ele é da área da linguística, filólogo. Justamente ao contrário do Alain, o Jean é alguém que se engajou na escola recriada pelo Lacan e que o Miller tomou conta, que é a Escola da Causa Freudiana de Paris. Logo depois da morte do Lacan o Miller se ocupou dessa escola, que é a integrante francesa da Associação Mundial de Psicanálise. A Obra Clara é um livro magnífico, mas que o próprio Milner repudiou um pouco depois, fazendo uma certa confusão nas relações da psicanálise com a ciência a partir do desenvolvimento que as ciências biológicas tiveram depois da morte de Lacan e que ele, portanto, não chegou a testemunhar. Enfim, essas coisas que são efeito da formação milleriana. Mas ele fez um livro incrível e como eu sempre me interessei por filosofia e suas relações com a psicanálise, para mim o livro é de uma clareza extraordinária. Por uma certa ironia todo mundo acha a obra do Lacan obscura, mas Lacan diz que a obra dele era cristalina. Eu concordo em algum sentido com isso que Lacan quer dizer e Milner pegou essa expressão, a obra cristalina, do Lacan e fez A Obra Clara , com o subtítulo Lacan, a ciência e a filosofia . Me marcou demais esse livro pelo que ele articula, sobretudo de dar à psicanálise um lugar muito peculiar no campo das ciências, sem cair num cientificismo reducionista.” Essa é a quinta publicação de uma série de entrevistas que estamos realizando com alguns psicanalistas sobre a temática do início da formação e a leitura que lhe marcou. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack  para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!

  • entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Pedro Leite

    Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise. Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan – é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em 9 seminários, com destaque para o seminário 11 e 13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan. Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas. Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura. Confira a primeira entrevista realizada, com Pedro Morales Tolentino Leite, psicanalista e escritor. Pedro é graduado e mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Aprimoramento em Clínica das Psicoses pelo Instituto A Casa e Especialização em Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Escreveu Sobre Humano (2014) e Essa cidade muda e outro conto (2021). A resposta de Pedro à pergunta “ qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista ” foi transcrita abaixo mantendo a primeira pessoa do singular. “Minha formação em psicanálise começou na clínica com crianças, e ao longo do tempo passei por diversos reinícios. Eu consigo pensar em algumas obras ou em alguns textos no interior de grandes obras que foram muito significativas para questões que estavam dadas em cada um desses tempos. Com certeza, gostaria de não ser tão previsível, mas a obra do Freud foi aquela que foi muito marcante no início, embora seja o caminho muito cotidiano dos analistas, seria aquela que primeiro abriu um grande universo para mim. E acho que da vasta obra dele, tem um texto dele que me marcou muito profundamente e que foi A Negativa (1925), também traduzido para A Negação , um texto simples, curto, mas como a psicanálise tem uma trama conceitual – a gente fala de conceitos axiais, conceitos que se definem por outros conceitos – quando eu li esse texto parece que eu assimilei algo ali, sobre a clínica, sobre o que um analista escuta, onde que está exatamente situado o inconsciente e como ele aparece no âmbito da clínica. Esse texto foi muito marcante para mim, então, eu diria primeiro como início a obra de Freud e esse texto. Um texto não é somente o texto em si, mas o tempo que a gente lê e com quem, era um momento que eu estava em supervisão coletiva, foi um texto que teve várias vozes de debate, e passa por isso também minha escolha. E outra obra que foi muito encantadora é a da Radmila Zygouris. Isso porque eu sinto como se ela tivesse me salvado um pouco do que eu entendo que é – não sei se é certo chamar de – um “lacanismo”, mas que seriam essas transmissões mais performáticas, atitudinais, que não necessariamente é sobre aquilo que o Lacan estava tentando ensinar, mas que vai tomando um corpo nas escolas e criando um tipo de ausência da função experimental das análises. A obra da Radmila deu uma arejada substancial para mim, em um momento que eu estava me apegando muito às formas visíveis pelas quais os analistas tentavam se dizer analistas, a partir de certas performances ou de alguns axiomas, de algumas formas de efeito, que me fez pensar; ela me balançou um pouco. A partir dela eu comecei a ler outros autores, me abri mais a um caráter heterodoxo, que não necessariamente não preza pelo rigor, mas que não faz silêncio sobre alguns temas que eu entendo que são importantes para a prática. Quando eu li o Freud, ainda estava em um campo bastante teórico e abstrato de descoberta sobre o pensamento, sobre o que é a psicanálise. E quando eu entrei na clínica foi um encontro grandioso com alguém que está muito ocupado do que acontece ali mesmo, na cena clínica, de coisas que não necessariamente aparecem nos textos que são mais teóricos ou de maior abrangência. O Freud eu comecei a ler na graduação, principalmente os textos clássicos. A primeira obra que eu li dele foi A Interpretação dos Sonhos (1900), foi uma leitura acompanhada em disciplina, também depois O caso Dora (1905). A Negativa foi um texto que não me foi sugerido (depois eu descobri que é um texto que o Lacan fala bastante), mas naquela época ele veio como uma surpresa, e eu acho que isso teve todo seu peso. É legal você encontrar com algo ali que já não tem uma linha interpretativa ou que você leu muitos comentadores e você se depara e faz uma descoberta pessoal, digamos assim. É um texto simples, mas quando você me contatou para a entrevista foi o primeiro texto que me ocorreu – ele me deu um estalo. Não sei se você já teve essa sensação, de às vezes você está lendo lendo e de repente alguma coisa se descortina. O Lacan também é um autor importante, mas eu ainda estou em discussão com ele, ainda tem história pela frente. Ainda está em aberto, por isso não posso dizer que foi marcante porque está em percurso essa parte. Me escutando agora, já que você criou essa oportunidade, eu acho que me tocaram muitos livros – é difícil falar isso – mas que falam com uma certa verdade sobre a situação do tratamento psicanalítico, não que só isso seja importante, eu entendo a importância da filosofia da clínica e da teorização complexa. Me lembrei do Oswaldo di Loreto também, com o Casos e Causos Acontecidos no Tempo das Diligências (2009) e sobre a clínica das crianças. Na época em que eu li fez pouco sentido porque eu não atendia ainda, mas ele tem uma pegada um pouco assim, de pensar o que que acontece ali, que tipo de identidades os analistas se revestem para conseguir suportar esse paradigma de só suposto saber, mas para fingir que sabe, e esse tipo de coisas, esse também é um autor que me lembrei agora e está nessa linha. As leituras são companhias; elas ficam mesmo. É uma pergunta interessante de se fazer para si e para os outros. Na minha experiência, é isso: marcam-me esses autores com quem me senti próximo, como se tivessem dito algo sobre o que estou vivendo. Isso nos dá a possibilidade de ocupar esse lugar, que é bem enigmático e diferencial em cada caso.” Essa é a primeira de uma série de entrevistas que vamos realizar. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita!

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