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entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Luciano Elia

  • Foto do escritor: Palavra e vereda
    Palavra e vereda
  • 24 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura

A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise. 


Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan.


Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. 


De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas.


Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura. 


Já publicamos as entrevistas que compõem essa série com as respostas de Pedro Morales Tolentino Leite, Ana Paula Fonini, Allan Kenji Seki e Elina Sartori.


O convidado de hoje é Luciano da Fonseca Elia. Luciano é psicanalista, professor e escritor, é formado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (1978), mestre (1984) e doutor (1992) em Psicologia Clínica e pós-doutor em Psicanálise e Criminologia (1995) pela PUC-Rio (1995). Atualmente é professor titular da Área de Psicanálise do Programa de Mestrado Profissional em Psicanálise e Políticas Públicas da Universidade do Estado do Río de Janeiro (UERJ) / campus Zona Oeste (Campo Grande). É psicanalista em formação permanente no Laço Analítico/Escola de Psicanálise, de cuja fundação em 1998 participou e do qual é hoje AME - Analista Membro da Escola e integrante de seu Coletivo Diretor. Escreveu os livros  Corpo e sexualidade em Freud e Lacan (1995), O conceito de sujeito (2004) e A Ciência da Psicanálise: Metodologia e Princípios (2023).


A resposta de Luciano à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista” foi transcrita abaixo mantendo a primeira pessoa do singular.


“Dois livros me marcaram, mas não exatamente no início da minha formação. Eu já tinha um certo percurso quando isso aconteceu, mas acho que vale falar desses dois. O primeiro é um do Alain-Didier Weil, psicanalista de primeira hora no ensino de Lacan em Paris, foi analisante do Lacan muito jovem, assim que terminou a faculdade de medicina/ psiquiatria, tem uma história muito importante com Lacan e depois não seguiu no movimento Milleriano. Pelo contrário, quando Lacan morreu e houve a fragmentação da Psicanálise em Paris em várias instituições que se recusaram a seguir com Miller, ele fundou o Custo Freudiano (Le Cout Freudien) e foi nesse momento que chegou ao Brasil uma obra dele publicada pela Zahar chamada Inconsciente freudiano e a transmissão da psicanálise. Na verdade esse livro nunca foi editado em francês, o original dele é brasileiro, foi organizado pelo Marco Antônio Coutinho Jorge e publicado em 1988. Naquele momento o Marco Antônio estava mais voltado para o ensino de Lacan e estava dirigindo uma coleção da Zahar chamada “Transmissão da Psicanálise” e esse é o sexto livro da série. Ele tinha contato com o Alain-Didier, depois eu vim a ter esse contato também e nos tornamos amigos. Esse livro me marcou muito pela maneira inventiva, teoricamente irreverente do Alain, como convém ao espírito psicanalítico. Assim como as consequências políticas dessa postura, digamos, dele. 


Outro livro, bem diferente desse, me marcou mais adiante. Eu me formei na faculdade de Psicologia da PUC-Rio em 1978 e comecei minha prática logo depois. O primeiro livro de que falei é de 1988 e esse segundo é de 1995, então, como você pode ver, não são livros do momento imediatamente inicial do meu percurso, mas que me marcaram levando em consideração que a formação do analista é permanente e necessariamente longa, que se estende no tempo…  


Esse segundo livro é A Obra Clara, do Jean Claude Milner. É um cara que não é psicanalista praticante, ele é da área da linguística, filólogo. Justamente ao contrário do Alain, o Jean é alguém que se engajou na escola recriada pelo Lacan e que o Miller tomou conta, que é a Escola da Causa Freudiana de Paris. Logo depois da morte do Lacan o Miller se ocupou dessa escola, que é a integrante francesa da Associação Mundial de Psicanálise. A Obra Clara é um livro magnífico, mas que o próprio Milner repudiou um pouco depois, fazendo uma certa confusão nas relações da psicanálise com a ciência a partir do desenvolvimento que as ciências biológicas tiveram depois da morte de Lacan e que ele, portanto, não chegou a testemunhar. Enfim, essas coisas que são efeito da formação milleriana. Mas ele fez um livro incrível e como eu sempre me interessei por filosofia e suas relações com a psicanálise, para mim o livro é de uma clareza extraordinária. Por uma certa ironia todo mundo acha a obra do Lacan obscura, mas Lacan diz que a obra dele era cristalina. Eu concordo em algum sentido com isso que Lacan quer dizer e Milner pegou essa expressão, a obra cristalina, do Lacan e fez A Obra Clara, com o subtítulo Lacan, a ciência e a filosofia. Me marcou demais esse livro pelo que ele articula, sobretudo de dar à psicanálise um lugar muito peculiar no campo das ciências, sem cair num cientificismo reducionista.”





Essa é a quinta publicação de uma série de entrevistas que estamos realizando com alguns psicanalistas sobre a temática do início da formação e a leitura que lhe marcou. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!

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